Ismael Nobre de Sena Silva, Guilherme Marques Rodrigues,

José Clécio Barbosa Júnior, Marcela Napoleão de Oliveira,

Talita Mendes Bezerra Ximenes, Victor Rabelo Araújo Lélis,

José Clécio Barbosa

Alunos do Curso de Medicina do Centro Universitário Unichristus

 

RELATO DE CASO

Paciente do sexo feminino, 79 anos, aposentada, natural e procedente de Iguatu (CE), comparece à Unidade Básica de Saúde (UBS) com queixa de febre diurna e vespertina, que aliviava com sintomáticos, associada à dispneia, ao longo de três dias. Relatou que o quadro teve início com picos febris havia seis dias, um dia após a paciente ter se vacinado em UBS.

Como antecedentes, referia hipertensão há 30 anos, diabetes mellitus e dislipidemia há 25 anos e coronariopatia com implantação de dois stents há dois anos. Relata cirurgia para catarata bilateral em 2017. Negou tabagismo, etilismo e uso de drogas ilícitas. Mora em casa de alvenaria, em boa condição hidrossanitária. Nega contato com animais, relata calendário vacinal atualizado.

Ao exame físico no atendimento da unidade de saúde, a paciente estava febril, dispneica, saturação O2 de 88% em ar ambiente. 

Devido à pandemia atual, foi suspeitado de infecção por COVID-19, sendo, então, solicitado PCR para o vírus em coleta de swab nasal e orofaríngea, seguida da internação em hospital de referência devido ao elevado risco de complicações respiratórias. Foi, ainda, requisitada Tomografia Computadorizada (TC) de Tórax para avaliar a gravidade do quadro, que demonstrou áreas de consolidação predominando no lobo superior esquerdo e língula, associados a tênues opacidades em vidro fosco e espessamento dos septos intralobulares perilesionais, bem como broncogramas aéreos de permeio e pequeno derrame pleural posterior, acometendo os terços médio e inferior do hemitórax esquerdo, com espessura de 1,9 cm (Figura 1).

Figura 1. TC de tórax inicial.

 

À admissão hospitalar, já no sétimo dia da doença, paciente encontrava-se em estado geral regular, subfebril (temperatura axilar medindo 37,5ºC), sem uso de oxigenioterapia suplementar, saturando 89% em ar ambiente. Para avaliar lesão miocárdica e risco de miocardite foram solicitadas troponinas e CKMB, que foram negativa e levemente elevada (26, VR: até 24), respectivamente. Iniciado terapia farmacológica com Ceftriaxona, Oseltamivir e Azitromicina. Coletado novo Swab de nasal e orofaringe para COVID-19 que reafirmou o diagnóstico positivo, instituída oxigenioterapia com cateter nasal de O2 5l/min e mantida medicações para insuficiência cardíaca. 

Durante os sete dias de internamento, a paciente permaneceu em isolamento respiratório e de contato. No período intra-hospitalar evoluiu clinicamente estável, afebril, aceitando dieta, sem uso de drogas vasoativas, eupneica, saturando em torno de 94% em ar ambiente e sem uso de oxigênio suplementar, apresentando melhora laboratorial das provas de função inflamatória (PCR apresentou melhora de 18 mg/dL para 11 mg/dL e LDH de 638 UI/L para 395 UI/L). Demais exames, como hemograma, ureia, creatinina, função e injúria hepática não chegaram a se alterar. 

Na alta hospitalar, apresentava apenas quadro de tosse seca discreta. Permaneceu em isolamento social por mais 7 dias, em casa. Realizou TC de tórax sem contraste de controle após conclusão desse período. Tal exame evidenciou aumento das áreas de consolidação predominando em lobo superior esquerdo e língula, diminuição em 0,4 cm da espessura da lâmina de derrame pleural em terço médio e inferior de hemitórax esquerdo e manutenção das demais alterações constatadas em tomografia prévia realizada no início do quadro (Figura 2).

Figura 2. TC de tórax durantre a internação.

 

DISCUSSÃO

No presente relato, apresentamos uma paciente de 79 anos, coronariopata e portadora de hipertensão e diabetes controlados. Nesse contexto, estima-se que, pelo menos, 8% dos pacientes nesta faixa etária evoluam a óbito, podendo chegar a mais de 15% em pacientes com idade acima de 80 anos. Nos EUA, de acordo com os dados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention, 2020), 80% da mortalidade em pacientes internados em UTI possuíam idade ≥65 anos.1,2,3 Um fator relevante para esses achados poderia estar relacionado a imunosenescência, que passa a ser mais percebida a partir dos 60 anos e estaria associado à diminuição das funções do sistema imunológico, aumentando o risco de infecções e permitindo maior agravamento de patologias, tais como a referente à COVID-19.4

 

CONCLUSÃO

A paciente do caso evoluiu com sinais de inflamação e doença moderada, necessitando suporte de oxigenoterapia, porém sem internamento em Unidade de Terapia Intensiva, nem medidas invasivas para o desconforto respiratório. Concluímos, então, que as terapêuticas descritas de suporte foram eficazes para estabilização da doença no estágio de hiperinflamação. As comorbidades da paciente estavam controladas, favorecendo a evolução com desfecho positivo. 

A continuidade dos estudos comprovará o real impacto da eficácia terapêutica desses fármacos experimentais frente a um paciente diagnosticado com infecção aguda pelo SARS-CoV-2.

 

5. REFERÊNCIAS

1. RICHARDSON, Safiya et al. Presenting characteristics, comorbidities, and outcomes among 5700 patients hospitalized with COVID-19 in the New York City area. Jama, 2020.

2. WU, Zunyou; MCGOOGAN, Jennifer M. Characteristics of and important lessons from the coronavirus disease 2019 (COVID-19) outbreak in China: summary of a report of 72 314 cases from the Chinese Center for Disease Control and Prevention. Jama, v. 323, n. 13, p. 1239-1242, 2020.

3. CDC, COVID TEAM, Response. Severe outcomes among patients with coronavirus disease 2019 (COVID-19)—United States, February 12–March 16, 2020. MMWR Morb Mortal Wkly Rep, v. 69, n. 12, p. 343-346, 2020.

4. FLORES, T. G.; LAMPERT, M. A.; MARIA-RS-BRASIL, Santa. Por que idosos são mais propensos a eventos adversos com a infecção por COVID-19? Comentários, RAGG especial Covid-19 e Coronavírus. 2020