"Acredito que essa pandemia de Covid-19 vem mais uma vez mostrar ao mundo que investir globalmente em áreas para prevenir e salvar vidas é prioridade"

A segunda edição da Revista Viver São José entrevista o médico, professor e pesquisador Aldo Ângelo Moreira Lima, primeiro residente em Infectologia do HSJ. A escolha pela especialidade não aconteceu por acaso. Desde adolescente, Aldo nutria curiosidade pelo surgimento de doenças e queria entender as possibilidades de cura que a Medicina poderia oferecer. Já formado, ao se deparar com a morte de crianças por diarreia e desnutrição, o jovem Aldo enxergou, na pesquisa, a possibilidade de contribuir para salvar a vida de meninos e meninas acometidos por esses e outros problemas de saúde. 

 

Foi assim, vocacionado a ajudar o próximo, que o médico deu os primeiros passos rumo à carreira brilhante de pesquisador, que se integrou, naturalmente, à de professor universitário. Exercendo um papel importante na formação de dezenas de pesquisadores em instituições nacionais e internacionais, Aldo chegou à Academia Brasileira de Ciência, que reúne os mais proeminentes estudiosos do Brasil. 


Em meio à rotina intensa de pesquisas e estudos, há um homem dedicado à família que mantém hábitos simples, como correr e passear em seu buggy. O médico de x anos traduz os aprendizados e conhecimentos compartilhados ao longo da vida em um versículo bíblico: “De graça recebestes, de graça deveis dar”. (Mt 10,8)

 

HVSJ: DR. Aldo, POR QUAL MOTIVO O SENHOR DECIDIU ESCOLHER A MEDICINA COMO PROFISSÃO?

Aldo: A decisão de fazer acho que começou já muito cedo, na dedicação ao estudo e na regularidade de fazer o dever de casa. No científico (1970), ou hoje o segundo grau, me deparei com o livro de Biologia que tinha um capítulo de ácidos nucleicos e a descoberta da sua estrutura com as figuras dos pesquisadores Francis Crick e James Watson. Na época, comecei a imaginar que, a partir dessa descoberta, iríamos ter algo mais preciso e científico que seria semelhante à tabela periódica para a Química. A Biologia neste sentido começou a me interessar como matéria de leitura e aprendizado. Esse foi o ponto crucial para o interesse na Medicina. Adicionalmente, sempre gostei de indagar sobre o conhecimento detalhado de como surgiam e desenvolviam as doenças e o interesse de desenvolver a cura para doenças.

HVSJ: O SENHOR FOI O PRIMEIRO RESIDENTE DO HOSPITAL SÃO JOSÉ. DE QUE FORMA SURGIU A ESCOLHA PELA INFECTOLOGIA E COMO FOI O CAMINHO ATÉ SUA CHEGADA À UNIDADE?

Aldo: A escolha pela Infectologia começou bem cedo, na Faculdade de Medicina da UFC, quando começamos a disciplina de doenças infecciosas (1976) e nas possibilidades de cura com o uso de antimicrobianos. A biologia dos microrganismos causadores dessas doenças era fascinante e o Brasil era e continua uma fábrica de doenças infecciosas e tropicais para explorar e desenvolver na Ciência e profissionalmente. Logo após esse período, no Hospital São José (HSJ), havia um período de dois anos para os alunos de Medicina no quinto e sexto ano de internato como estagiário e bolsista em doenças infecciosas (1977-1978). Esse estágio em doenças infecciosas foi crítico para a decisão de fazer a residência de doenças infecciosas no hospital (1979-1980). O processo de seleção de estagiários, internos, o ambiente de trabalho com os colegas estagiários, internistas e o pessoal médico do hospital foram fundamentais para essa escolha. A liderança do professor doutor Valdenor B. Magalhães, diretor do HSJ, e da doutora Maria Lisier G. Albuquerque, diretora clínica e chefe dos residentes e dos estagiários, foi ímpar para a condução dessa experiência.  

HVSJ: COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA NO HSJ?

Aldo: A experiência como estagiário, interno e, em seguida, primeiro residente do HSJ foi significativa para o aprendizado e experiência médica na clínica e terapêutica dos pacientes com doenças infecciosas. À época, tivemos o surto da epidemia de meningite meningocócica e, à semelhança de hoje, com a pandemia da Covid-19, ficamos assustados com o número de pacientes com meningite que chegavam ao hospital. 

Diferente do que temos hoje com a Covid-19, já tínhamos uma terapia com antimicrobianos eficaz contra a meningite meningocócica. O problema era o tempo para o diagnóstico e início da terapia. Algumas vezes, [os pacientes] já chegavam ao hospital com um quadro muito severo e debilitante da doença. Chamava atenção na época o número de casos de tétano, incluindo os neonatais, que chegavam ao HSJ. Alguns casos de raiva nos deixavam bastante tristes, pois sabíamos da letalidade de 100%. Casos de difteria e outras doenças infecciosas sempre nos chamavam atenção e o sucesso na cura nos alegrava bastante por todo o acompanhamento e trabalho árduo da equipe no hospital. 

HVSJ: QUAIS OS DESAFIOS E OS APRENDIZADOS QUE MARCARAM SUA PASSAGEM PELO HOSPITAL? 

Aldo: O HSJ foi desde o início marcante na formação médica por apresentar à época um estágio médico com orientação acadêmica baseado no melhor que tínhamos de evidência científica. Isto foi significativo para que buscasse uma formação acadêmica completa, com um mestrado em Farmacologia (1983), doutorado (1989) em Imunologia, Parasitologia e Bacteriologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo e doutorado sanduíche na Divisão de Doenças Infecciosas na Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos (1984-1988). Assim, a história marcante no HSJ foi a busca continuada para formação acadêmica completa e contínua em Medicina e doenças infecciosas.

HVSJ: EM 2021, O HOSPITAL SÃO JOSÉ COMPLETOU 51 ANOS DE HISTÓRIA. NA SUA VISÃO, QUAIS OS DIFERENCIAIS DO HSJ EM RELAÇÃO A OUTRAS UNIDADES DE SAÚDE?

Aldo: O maior diferencial do HSJ é a sua equipe médica, Enfermagem e auxiliares voltados para o atendimento em doenças infecciosas, utilizando a Medicina baseada em evidências, estimulando não só a formação médica e de outras especialidades, mas também o desenvolvimento de pesquisas clínicas na área de doenças infecciosas, tão importante nos dias hoje.

HVSJ: EM 2020, O SENHOR INGRESSOU NA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIA, QUE TEM COMO MISSÃO REUNIR OS MAIS PROEMINENTES PESQUISADORES DO PAÍS. COMO SURGIU O SEU INTERESSE PELA PESQUISA CIENTÍFICA E QUAL O SIGNIFICADO DE FAZER PARTE DE UMA INSTITUIÇÃO TÃO IMPORTANTE?

Aldo: O interesse pela pesquisa científica foi algo que foi crescendo à medida que iniciou meu interesse pela Biologia, já no segundo grau. No terceiro ano da Faculdade de Medicina (1975), ingressei na monitoria da disciplina de Farmacologia e, nesse período, tive a chance de realizar pesquisa pré-clínica médica, que me estimulou, após a formação na residência médica, a ingressar no mestrado em Farmacologia. Um ponto marcante que me levou à linha de pesquisa que ainda hoje trabalho foi o período da residência médica no HSJ e no estágio de seis meses no Hospital Albert Sabin (Hias), em 1980. 

Trabalhando como residente no Albert Sabin, tivemos várias experiências de atendermos e evoluir crianças com ciclo vicioso de diarreia e desnutrição, as quais recebiam o melhor que o hospital poderia dar, como dieta balanceada para desnutrido, antimicrobianos de última geração e experiência com uma equipe médica bem formada. No entanto, foi frequente observar que algumas crianças não conseguiam sair do quadro do ciclo vicioso de diarreia e desnutrição. As perdas dessas crianças marcaram para sempre a minha vida de pesquisador, pois nessa época havia dito em silêncio para mim que, se tivesse de fazer alguma pesquisa na minha vida, seria na linha de infecção entérica e desnutrição. Essa decisão em silêncio virou um profetismo para minha carreira acadêmica e a progressão nesse sentido, incluindo pesquisas clínicas no HSJ, Hias e em comunidades urbanas em Fortaleza e na região no semiárido brasileiro, resultou no reconhecimento e eleição como membro titular na Academia Brasileira de Medicina (ABC). 

HVSJ: O SÃO JOSÉ TORNOU-SE, AO LONGO DOS ANOS, TERRENO FÉRTIL PARA A PRODUÇÃO CIENTÍFICA, FOMENTANDO A REALIZAÇÃO DE INÚMEROS TRABALHOS ACADÊMICOS. DO PONTO DE VISTA DA PESQUISA, QUAIS FORAM SUAS EXPERIÊNCIAS NA UNIDADE?

Aldo: O HSJ é um hospital de médio porte com características voltadas há longo tempo para o atendimento especializado em doenças infecciosas, pesquisa clínica e extensão na área de saúde. Cito duas experiências ao longo de décadas de trabalho acadêmico das quais o HSJ participou e vem participando ativamente. A primeira foi na pandemia da infecção pelo HIV/aids, considerada a quinta mais importante no mundo por sua mortalidade no total de aproximadamente 25 milhões de vidas. Nas décadas de 1990 e 2000, tivemos várias pesquisas com formação acadêmica de vários professores doutores, como Érico Arruda, Melissa Medeiros, Robério Leite e Roberto da Justa, que resultaram no conhecimento melhor da resistência do HIV aos antirretrovirais, bem como estudos na barreira funcional gastrointestinal e terapia de recuperação dessa barreira comprometida pelo vírus HIV/aids. Recentemente, tivemos três projetos envolvendo ensaios clínicos de fármacos contra o SARS-CoV-2, agente etiológico da nova pandemia da Covid-19, patobiolgia e novo teste diagnóstico envolvendo a tecnologia de LAMP para reduzir o custo e praticidade de uso na população. Assim, o HSJ foi e continua sendo parte importante para pesquisa e formação acadêmica de novos pesquisadores e para o conhecimento e combate de novas epidemias e pandemias que assolam o mundo. 

HVSJ: O SENHOR CONTRIBUIU PARA A FORMAÇÃO DE DEZENAS DE PESQUISADORES NO BRASIL E NO EXTERIOR. QUAL O SENTIMENTO POR SER PARTE IMPORTANTE NA VIDA PROFISSIONAL DE TANTAS PESSOAS?

Aldo: Durante a minha formação acadêmica, tive a graça de receber gratuitamente os ensinamentos necessários para capacitar o desenvolvimento profissional médico e acadêmico para pesquisa e formação de recursos humanos. Assim, a maior graça está nesse versículo: “De graça recebestes, de graça deveis dar!” (Mt 10,8).

HVSJ: A PANDEMIA COLOCOU EM EVIDÊNCIA A IMPORTÂNCIA DA INFECTOLOGIA E DA PESQUISA CIENTÍFICA. QUAIS OS LEGADOS QUE ESTE PERÍODO DIFÍCIL DEIXARÁ PARA AMBAS AS ÁREAS?

Aldo: A pesquisa científica e a área de doenças infecciosas já vêm ao longo do tempo sendo reconhecidas por especialistas como sendo de fundamental importância para prevenir e tratar futuras pandemias, epidemias e endemias que, desde a antiguidade, vêm ceifando vidas em larga escala na humanidade. Acredito que essa pandemia de Covid-19 vem mais uma vez mostrar ao mundo que investir globalmente em áreas para prevenir e salvar vidas é prioridade, uma vez que é do nosso conhecimento cada vez mais frequente o risco de novas pandemias que estão associadas à devastação do meio ambiente. Assim, a política, a administração global para preservação ambiental, educação, saúde, alimentação e saneamento são de extrema urgência e prioridade para a humanidade.

HVSJ: O SENHOR É, TAMBÉM, PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE FISIOLOGIA E FARMACOLOGIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ. COMO É SEU CONTATO COM AS NOVAS GERAÇÕES DE ESTUDANTES  EM FORMAÇÃO?

Aldo: Como professor da graduação, temos contato com estudantes de várias graduações, como Medicina, Farmácia, Enfermagem e Odontologia. Nessas graduações, estamos sempre falando da importância da pesquisa para a descoberta de novos fármacos antimicrobianos e valorizando os pesquisadores cientistas e médicos que foram importantes para essas descobertas, muitas delas premiadas com o prêmio Nobel de Medicina. Essa atividade tem sido muito gratificante, pois alguns desses alunos decidem progredir para iniciação científica, tendo uma vida acadêmica completa, com formação incluindo mestrado e doutorado. Neste sentido, temos mantido a chama acesa para novos profissionais e/ou pesquisadores e isto nos gratifica plenamente. 

HVSJ: E POR FALAR EM NOVAS GERAÇÕES, PELA SUA EXPERIÊNCIA, QUE CARACTERÍSTICAS UM MÉDICO PRECISA TER PARA EXERCER A PROFISSÃO DA MELHOR FORMA?

Aldo: O profissional médico é normalmente muito exigido na sua formação na graduação e residência médica, mas acredito que sua evolução em uma sólida formação acadêmica, com mestrado e doutorado, faça o diferencial para que contribua com o melhor desempenho profissional e novos conhecimentos através da pesquisa científica de importância para evolução da Medicina. Afinal de contas, temos ainda muito que aprender e desenvolver para a prevenção e cura de doenças, como acompanhamos hoje com a Covid-19, e os diversos tipos de câncer ainda sem prevenção e tratamento curativo.

HVSJ: POR ATUAR EM VÁRIOS CAMPOS DA MEDICINA, O SENHOR, CERTAMENTE, TEM UMA VIDA BEM CORRIDA. VOCÊ POSSUI ALGUM HOBBY QUE NÃO TEM RELAÇÃO COM O SEU TRABALHO?

Aldo: Ter um hobby faz parte com certeza da minha vida, pois me ajuda na rotina quase que contínua de trabalho acadêmico que desenvolvemos. Desde menino, gostava de correr e, ao morar fora do país no período do doutorado sanduíche, descobri o método de Kenneth Cooper de corrida (1985). Desde então continuo praticando a corrida de duas a três vezes por semana, fazendo entorno de 5 km. Isto nos renova e tira muito o estresse do dia a dia de trabalho. Um segundo hobby às vezes é necessário. Assim, tenho um buggy há mais de vinte e sete anos e gosto de passear para apreciar a natureza.

HVSJ: FALANDO AGORA UM POUCO DA SUA FAMÍLIA, COMO ELA SE INTEGRA À SUA VIDA PROFISSIONAL?

Aldo: A família é essencial para minha vida como pessoa e profissional da saúde. Minha esposa, Noélia L. Lima, é professora e médica pediatra e tem uma formação com residência médica, mestrado e doutorado. Neste sentido, temos muito em comum e partilhamos muito nosso dia a dia como casal e profissionais na área de saúde. Temos três filhos (uma menina e dois meninos com 38, 36 e 34 anos de idade). São casados e, atualmente, temos quatro netos. 

HVSJ: DR. Aldo, PARA FINALIZAR, O QUE MAIS LHE MARCOU COMO MÉDICO E PESQUISADOR AO LONGO DA SUA CARREIRA?

Aldo: Como médico, me marcou a necessidade de uma formação acadêmica plena para o desenvolvimento de conhecimento e formação de novos recursos humanos, incluindo a área médica. Como pesquisador, hoje fico satisfeito por recentemente ter participado e acompanhado o conhecimento melhor do ciclo vicioso diarreia-desnutrição e enteropatia ambiental e o potencial recente para o bloqueio desse ciclo com fármacos, dieta, e novos pré e probióticos capazes de reverter esse ciclo tão lesivo e, muitas vezes, silencioso para o desenvolvimento físico, educacional e cognitivo de crianças no mundo.