Talita de Lemos Araujo1, Maria Elisabeth Sousa Amaral2, Charlliane Fernandes Gonçalves Ribeiro3

1. Assistente Social, mestra em Psicologia-Saúde Mental pela UPE/Pe e Preceptora da Resmulti Infectologia-ESP/CE.
2. Assistente Social, mestra em Gestão, Planejamento e Política de Saúde, Universidade de Leeds - Reino Unido (Gerente do Serviço Social) e docente Unichristus.    
3. Assistente Social,  mestranda em Políticas em Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz

 

A pandemia de Covid-19 abriu uma crise sanitária de proporções jamais vistas no prenúncio do século XXI, constituindo-se o maior desafio para os sistemas de saúde no mundo inteiro. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) desempenha desde então o seu maior teste, numa conjuntura adversa decorrente do congelamento do teto de gastos aprovado pelo Congresso Nacional em meados de 2016. Contudo, todas as unidades de saúde, em todos os níveis de atenção do sistema de saúde, abriram-se para atender à demanda crescente e desafiadora. O Hospital São José vem, desde então, exercendo importante protagonismo por ser referência terciária em doenças infecciosas no Ceará.    A partir de março de 2020, todas as categorias profissionais defrontaram-se com o manejo desta nova doença e suas implicações internas no tocante à organização dos processos de trabalho, às exigências de biossegurança, ao redesenho de fluxos,  às novas abordagens e às implicações que envolviam diretamente os pacientes, num aprendizado contínuo em que as inseguranças, o medo, mas sobretudo o dever do enfrentamento, davam o tom e a dinâmica de cada plantão.

Nesta lida, coube ao Serviço Social o fortalecimento de seu papel histórico para o atendimento das demandas sociais dos pacientes, acrescido do atendimento aos familiares que se constituíam “grupo potencialmente de risco” por serem classificados como contactantes de primeiro grau. Estes, obviamente, tinham pouco conhecimento sobre a doença, muito medo e desconheciam, por exemplo, os cuidados que eles deveriam ter a partir da internação de seu familiar ou durante seu retorno para casa. Além disso, precisavam observar possíveis sintomas e seguir as normas sanitárias de usar máscaras e manter o distanciamento social e o isolamento em determinadas situações.

Importante ressaltar que a equipe de Serviço Social do HSJ estava bastante restrita à época e 25% da força de trabalho veio a ser contaminada, passando a experimentar as agruras do adoecimento por Covid-19. Assim, logo cedo, compreendemos que a linha de frente era comum a todos os trabalhadores que, de diversos modos, estavam expostos por realizarem atividades que também traziam risco. 

Historicamente, cabe ao Serviço Social a tarefa de conhecer o paciente em seus aspectos social, econômico, familiar e comunitário para, a partir daí, buscar a garantia de direitos muitas vezes desconhecidos por ele e empreender esforços para viabilizá-los.  A título de exemplo: direitos previdenciários, socioassistenciais, de acesso à justiça, Benefício de Prestação Continuada (BPC), auxílio-doença, aposentadoria, além de outros recursos pleiteados via Defensoria Pública, contatos com a rede de serviços de saúde, previdência e assistência social. Nos casos de óbitos, a equipe fornecia acolhimento às famílias e as orientações acerca do acesso a benefícios como o auxílio- funeral.

No percurso da pandemia, surge o direito ao benefício do auxílio emergencial, que mobilizou a equipe e que visava garantir os mínimos necessários, tendo em vista o quadro vigente de desemprego, lockdown – e consequente subtração do exercício de atividades informais, e a necessidade de uma renda mínima para garantir a subsistência dos mais vulneráveis.  Neste esforço, a admissão social e o diálogo com o paciente, quando possível, ou familiar próximo, constituiu-se o caminho ideal para levar esta informação e os caminhos de acesso ao benefício a quem dele precisasse. 

A admissão social também tem o propósito de fornecer para toda equipe um pouco sobre a história do paciente e dar-lhe um rosto para além da doença. Nos quadros mais críticos de Covid-19, a família tornou-se o centro das nossas intervenções e, por vezes, estávamos envolvidos no atendimento em processo de admissão social do paciente junto ao seu familiar. Já no dia seguinte, era o familiar que se tornava paciente, sendo esta a dinâmica que se estabeleceu a partir de então. 

A característica mais predominante no início da pandemia foi uma forte incidência de pessoas idosas como grupo alvo da doença mais suscetível a internações. Este quadro epidemiológico, no entanto, foi se alterando ao longo do tempo. Contudo, no início se impôs um processo de isolamento, o que por si só alterou a rotina do Serviço Social no tocante a processos de visita e de acompanhamento de pacientes que foram sumariamente sustados como forma de prevenir contágio e, com isso, garantir maior segurança para familiares e equipes de trabalho. A preocupação do Serviço Social passou a ser, a partir de então, a garantia do direito a uma boa comunicação com a família, como forma de redução do estresse da internação, as inseguranças advindas da doença, medo da morte e as constantes e intermináveis solicitações das famílias por notícias sobre o quadro de evolução do seu paciente. 

Buscamos assegurar este direito a partir da organização, junto à direção do hospital, de fluxos internos que possibilitassem mitigar danos tanto para pacientes quanto para seus familiares. Os adoecimentos por Covid-19 não estão circunscritos apenas aos agravos do vírus no organismo. Há toda uma carga de subjetividades que envolvem pacientes e familiares, dentre estes o medo da morte, que está muito presente no imaginário de todos. Assim, diariamente o Serviço Social acolheu as famílias e realizou articulação com os demais profissionais, no sentido de viabilizar uma comunicação entre a equipe e os familiares dos pacientes internados e o repasse de boletim médico. Por vezes, esta informação não se fazia suficiente e as famílias buscavam os assistentes sociais para obter mais detalhes ou informações que fossem capazes de tranquilizar ou melhor informar os familiares. 

Diante desta necessidade, agravada pelo quadro restrito de assistentes sociais para dar a cobertura desejada, buscamos, através da preceptoria de campo da Residência Multiprofissional, construir  uma parceria com os residentes e um outro modelo de comunicação multiprofissional passou a se somar ao boletim médico. Assim, a partir do Projeto Acolhimento Multiprofissional - Covid-19, numa única ligação em viva voz, cada categoria profissional podia melhor esclarecer como estava o paciente na perspectiva do Serviço social, da Nutrição, da Psicologia, da Fisioterapia, da Enfermagem, entre outras áreas, sempre a partir da demanda da família. Este trabalho constituiu uma inovação e trouxe excelentes ganhos tanto na aprendizagem de uma abordagem em equipe na perspectiva da Covid-19 quanto na qualidade da informação mais precisa e esclarecedora para as famílias, para além do quadro clínico, reduzindo as reclamações e aumentando o grau de satisfação com o atendimento da instituição.

Igualmente importante foi a garantia da utilização de aparelhos celulares pelos pacientes para reduzir o quadro de solidão e isolamento a que ficavam submetidos, favorecendo a comunicação com familiares, o que em muito contribui para aliviar o sofrimento de ambos os lados e atenuar o período de internação no hospital, pois trata-se de ferramenta com muitas possibilidades de interação e passa tempo. Para amparar esta possibilidade, o Serviço Social buscou, na literatura internacional, mais precisamente nos protocolos do NHS, sistema de saúde inglês, igualmente público, universal e gratuito como o SUS, evidências positivas relacionadas ao uso do aparelho telefônico, tendo em vista que a Covid-19 é uma doença marcada pela solidão e por grande sofrimento mental.

O Serviço Social também buscou recursos materiais (tablets) para a realização de videochamadas entre os pacientes e seus familiares. A busca se deu junto ao grupo de consultores do Projeto Mais Saúde, parceria estabelecida entre o Banco Itaú, Hospital Sírio Libanês e Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). O grupo visitou o HSJ e deu suporte para o desenvolvimento de algumas estratégias de fortalecimento das equipes para o enfrentamento da pandemia. Os três tablets doados são utilizados hoje tanto pela equipe do Serviço Social quanto pela equipe de Psicologia do hospital nas mais diversas circunstâncias. Os resultados destas interações são extremamente positivos para pacientes e familiares.

O Serviço Social também participa de um dos momentos mais dolorosos por que passam as famílias, que é a notícia do óbito de seu familiar. A Covid-19 roubou, por muito tempo, nossa expressão cultural de vivência do processo de luto e sepultamento, que se tornou uma quase violência ao restringir o processo de reconhecimento do corpo do falecido a um familiar, isso sem contar as restrições de velório impostas por legislação específica. É difícil mensurar no momento quais as consequências psíquicas que este tipo de procedimento está a ensejar nos familiares dos pacientes que vão a óbito. Ao mesmo tempo o Serviço Social precisa realizar as últimas e necessárias orientações aos familiares, dentre elas as informações de acesso ao auxílio-funeral, benefício assistencial que garante às famílias sem cobertura funerária privada o acesso a serviço fúnebre e sepultamento para que, além de toda a dor do momento, estas não fiquem desamparadas nesse sentido. 

Por último, ressaltamos a importância das altas celebradas, lembrando que elas sempre partem do desejo das famílias e são viabilizadas, na maior parte das vezes, com o apoio do Serviço Social e da residência multiprofissional. Foram usados diferentes apelos visuais e sonoros, como cartazes, músicas, preces e falas dos familiares que, no momento da alta, expressam sua gratidão a todos os servidores do hospital que, de forma devotada, cumpriram o ciclo de atendimento e restabelecimento do paciente. Estas celebrações são, em geral, tocantes e belas, mas consideramos que representam também um grande momento terapêutico e de renovação para as equipes, que veem o resultado de seu trabalho e se fortalecem para continuarem a tarefa de cuidar de cada paciente.     

O QUE ESTA EXPERIÊNCIA NOS ENSINOU ATÉ AQUI? 

A Covid-19 é uma doença cujo núcleo de pesquisa e construção de novos conhecimentos e saberes assenta-se sobre o campo da infectologia por excelência, porém, ela alcança o indivíduo não apenas nos aspectos clínicos, mas sobejamente nos aspectos das suas subjetividades. Como diz o poeta Pablo Neruda, “Dos muitos homens que sou, e nós somos, não podemos nos assentar em apenas um. Eles estão perdidos para mim dentro das capas das roupas”. 

A doença carrega o assombro da morte, acorda a finitude da vida e com ela as questões últimas da existência que, como seres humanos, teimamos em adiar. Presenciamos nesta experiência a necessidade dos pacientes em mandar recados inadiáveis, que vão desde a urgência de dizer “eu te amo” para um ente querido ou “quando eu acordar a gente se fala, viu?!” até as providências mais comezinhas, como “por favor pague as contas que ficaram em cima da geladeira”. Esta dimensão chama por uma abordagem de cuidado mais sistêmica e holística, pois é isso que somos: humanos frágeis e não apenas órgãos adoecidos, pulmões atingidos em 25, 50 ou 70% e muito menos uma saturação em queda.

Ficam então algumas perguntas diante do que vivenciamos, presenciamos e refletimos durante esse tempo de atuação nessa emaranhada linha de frente: como os demais integrantes da equipe multiprofissional do Hospital São José compreendem o objeto de trabalho do Serviço Social, a questão social e a prática dessa categoria profissional nos processos de cuidado na referida instituição? O que se pode inaugurar como novo rumo para um trabalho efetivamente em equipe?

Para nós, do Serviço Social, fica como certeza a percepção acerca da complexidade humana, das múltiplas dimensões dos pacientes, familiares e trabalhadores da saúde e da riqueza de saberes que cada um desses atores pode agregar ao processo de cuidado em saúde mediante um diálogo horizontal para que esses saberes possam se complementar.  Como presente, fica um pouquinho de Neruda para refrescar nossas mentes. 

Dos muitos homens que sou, e nós somos...

Dos muitos homens que sou, e nós somos,

não podemos nos assentar em apenas um.

Eles estão perdidos para mim dentro das capas das roupas,

eles tomaram o rumo de outra cidade.

Quando tudo parece estar bem

para que eu me mostre como um homem inteligente,

o louco que eu mantinha encerrado em minha pessoa toma minha

fala e ocupa minha boca.

Em outras ocasiões, quando estou perdido

entre pessoas distintas

e chamo meu eu corajoso

um covarde completamente desconhecido vem sacudir meu pobre

esqueleto

com mil pequenas reservas

Quando uma casa digna explode em chamas,

ao invés do bombeiro que eu chamo,

irrompe em cena um incendiário

E ele sou eu. Não há nada que eu possa fazer.

O que posso fazer para escolher a mim mesmo?

Como posso me compor?

Todos os livros que li

idealizam figuras de heróis brilhantes.

Sempre cheios de auto-confiança.

Eu morro de inveja deles e;

em filmes em que balas voam ao vento,

Sinto inveja dos cowboys,

Admiro até os cavalos.

Mas quando eu chamo meu eu corajoso,

lá vem meu velho ser preguiçoso,

e assim, nunca sei quem eu sou,

ou quantos eu sou, ou quem estará sendo.

Eu gostaria de ser capaz de tocar um sino

e chamar meu ser real, o verdadeiro eu,

pois se eu realmente preciso do meu ser próprio,

não posso deixá-lo desaparecer.

Quando estou escrevendo, estou longe

quando retorno, já me fui.

Eu gostaria de ver a mesma coisa acontecer

a outras pessoas como ocorre comigo,

para ver se tantos são como eu,

e quantos deles sentem-se da mesma forma consigo mesmos.

Quando este problema for totalmente explorado

vou me treinar tão bem nessas coisas que

quando eu tentar explicar meus problemas,

falarei não de um ser, mas de uma geografia.

 

Pablo Neruda