Elodie Bomfim Hyppolito¹

¹Médica hepatologista do Hospital São José e doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará

 

A pandemia de COVID-19 chegou abalando o mundo. Não seria diferente no Ceará e no Hospital São José. De médica hepatologista me vi transformada pela COVID-19 em Intensivista, ”covidologista”, paliativista e também em Médica Mensageira. Cada uma dessa novas funções me trouxeram enormes ensinamentos. Tive que voltar a intubar, ventilar, usar drogas da terapia intensiva há muito tempo esquecidas. Entretanto, nenhuma dessas funções me trouxe tanto crescimento pessoal como a de Médica Mensageira do Hospital São José. O HSJ é um hospital de referência terciária em doenças infecciosas e conta com um injusto estigma de medo dos usuários atendidos pela primeira vez. 

Mesmo trabalhando há 26 anos nesta unidade, nunca vi tanto medo entre pacientes, gestores, profissionais e familiares diante de uma doença como tem sido com a COVID-19. Lidar com o medo é sempre difícil e sem a informação adequada é desesperador. Soubemos de pacientes intubados, graves, cujas famílias sofriam intensamente por ficarem dias sem saber se o seu pai, mãe, avô, filho, amigos estavam vivos. Soubemos pelos noticiários de algumas denúncias junto ao Ministério Público de unidades com graves problemas de comunicação com as famílias. Em algumas unidades de saúde, nas piores semanas, as notícias resumiam-se, muitas vezes, a um texto frio ou mensagem eletrônica. 

Foi um momento desumano para todos. Além de ter que lidar com a dor e a incerteza de ter o seu parente de volta, a população tinha que conviver com notícias de covas rapidamente preenchidas. 5 mil, 30 mil, 50 mil, 140 mil mortes.

O Hospital São José completou 50 anos e enfrentou talvez o seu maior desafio. Nossa direção e corpo clínico lidou com tudo com máxima dedicação. Essa instituição se orgulha do atendimento humanizado. Na galeria dos ex-diretores, a frase do Dr Lúcio Alcântara nos acolhe: “Há algo de diferente na alma de quem trabalha no HSJ!”. Na pandemia de COVID-19, não seria diferente. Com alguma dificuldade nas primeiras semanas, a comunicação entre a equipe e as famílias evoluiu positivamente durante os primeiros seis meses de enfrentamento.

No início foi criada uma equipe multidisciplinar composta por assistentes sociais, enfermeiras e psicólogas. A demanda das famílias por um maior detalhamento técnico do tratamento dos seus entes queridos motivou a direção compor uma segunda equipe de notícias composta de nove médicas, um médico e uma enfermeira, todos batizados como “mensageiros”. 

Diariamente, os médicos prescritores preenchiam um relatório dos seus pacientes que é conhecido pela sigla SBAR (Situação, Breve histórico, Avaliação, Recomendação). Essa é uma sistematização validada para passagens de plantão e previne erros de comunicação. No SBAR, tínhamos acesso a informações da gravidade, suporte de oxigênio, medicamentos, exames realizados e possíveis transferências eram registrados. 

Ligávamos diariamente para o número cadastrado no período da tarde e, eventualmente, o próprio paciente atendia o celular. “Sou eu mesmo, doutora, o paciente, mas, por favor, quero ouvir como estou”. E assim obedecíamos.

 Algumas ligações eram bem demoradas, em algumas ouvíamos relatos da personalidade do paciente, preferências alimentares, histórias pitorescas contadas por filhos sobre seus pais ou de pais zelosos falando sobre seus filhos. Impossível não se emocionar. Foram tantos diálogos inesquecíveis. “Dona Maria, seu marido hoje saiu do oxigênio, isso significa que está perto de ir para casa”. Ouvíamos gritos de alegria do outro lado.

“Qual a saturação dele hoje?” Após alguns dias de internação, os familiares e pacientes entendiam todos os termos técnicos e questionavam tanto que, por vezes, pareciam profissionais da área de saúde. Questionavam bastante os tratamentos ouvidos na televisão. “Ele está usando heparina? E essa tal da cloroquina, doutora, presta?”.

Em uma videoconferência emocionante feita com o meu celular, tive que engolir o choro. Um senhor que tinha acabado de sair da UTI após 30 dias intubado: “Feliz aniversário, minha véia. Eu tô bem, eu escapei, tô quase bom e indo pra casa”. De todas as mensagens, a que mais me emocionou foi a de dona Lurdes, cujo esposo, de 74 anos, estava internado há 45 dias, intubado, gravíssimo. “Doutora, pelo amor de Deus, me deixa ver meu marido só uma vezinha antes dele morrer. As notícias estão cada dia piores, eu sei que ele vai morrer!” Ela acompanhou o seu esposo nos últimos dias de vida. 

Como noticiar a morte com empatia? Sempre tentava dar a notícia na perspectiva da esperança e do fim do sofrimento. Para quem parte é o fim da dor, para quem fica, muita saudade e sofrimento. Felizmente foram a minoria das notícias que tínhamos que dar, em geral, essa foi uma atribuição realizada pela psicologia. Felicidade suprema era noticiar uma alta! Quantos gritos alegres não ouvi do outro lado da linha?

Os sentimentos descritos por todos os mensageiros eram semelhantes. Lembro-me do primeiro plantão e da insegurança que senti de não saber fazer aquela tarefa cuja habilidade nunca havia sido treinada. Acalmou-me estar diante da serena e segura colega infectologista, Lara Távora. Recebi suas dicas atentamente, observei a maneira firme e empática que transmitia as suas notícias. E assim era a nossa “formação”. Aprendemos uns com os outros. Creio que todos os escolhidos foram selecionados por terem alguma habilidade em conversar.

A maioria de nós sentia satisfação na tarefa desempenhada. Nem todos. Alguns colegas descreviam uma sensação enorme de cansaço mental, desgaste emocional após o turno de notícias. Que momentos felizes nós também presenciamos. Corredores de profissionais de saúde, plaquinhas de boa sorte e muitas palmas conduziam os pacientes às aliviadas famílias. Era impossível ficar imune a dor daquelas pessoas, elas não eram números, eram pessoas de carne e osso como nós. 

Com as mensagens, eu aprendi a escolher melhor as palavras, a ouvir, a silenciar minhas palavras diante do sofrimento. Resumindo, para mim foi uma grande honra compor a equipe de mensageiros do HSJ junto dos colegas Tânia Mara Coelho, Christiane Takeda, Lara Távora, Mariana Moura Fé, Carolina Saraiva, Terezinha do Menino Jesus, Lisandra Serra, Clarice Ponte, Francisco Ferraz e enfermeira Rachel de Azevedo Tavares. Sempre finalizava as mensagens dizendo que tudo estava sendo feito como eu gostaria que estivesse sendo feito em um parente meu, pois acho isso um grande conforto, especialmente verdadeiro nessa unidade em que eu trabalho. Unidade SUS, cheia de funcionários comprometidos. Saíamos cansados, mas felizes da vida, cheios de bênção sinceras: “Obrigada, Dra, Deus abençoe a senhora e a todos desse hospital”. Mas orgulhosa mesmo eu ficava quando ouvia: “Doutora, eu jamais esperava ser tão bem atendido em um hospital do SUS.”

Viva ao Hospital São José! Viva o SUS! Eu me orgulho e defendo o SUS!