Karla Corrêa Lima Miranda¹, Sara Lavor Fernandes², Gisele Menezes Dutra³, Emilly Melo Gomes⁴, Simone Maria dos Santos Lima⁵, Níveamara Sidrac Lima Barroso⁶, Mayara da Silva Braga⁷, Aiala de Melo Martins⁸, Kelly Cristine Silva Pereira⁹, Maria Eliara Gomes Lima¹⁰ 

1. Psicóloga do hospital São José, professora do Programa de Pós-Graduação de Cuidados Clínicos da Uece, docente da Unichristus    2. Psicóloga do Hospital São José    
3.Psicologa Hospital São José    4. Psicóloga do Hospital São José    
5. Psicóloga do Hospital São José    
6. Psicóloga do Hospital São José    
7. Programa de Residência Multiprofissional e Saúde    
8. Programa de Residência Multiprofissional em Saúde    9. Programa de Residência Multiprofissional em Saúde    
10. Programa de Residência Multiprofissional em Saúde    

 

A interface entre a Psicologia e a atenção hospitalar caracteriza-se, primordialmente, por um contexto marcado pelo sofrimento que, em maior ou menor intensidade, apresenta-se como próprio das situações de crise e adoecimento. Este contexto põe à prova os mecanismos adaptativos adequados, o que já justificaria a presença da psicóloga e sua ação no ambiente hospitalar. Frente à objetividade e a resolutividade necessárias neste ambiente, emerge uma demanda de sofrimento adicional, evidenciada pelas subjetividades em jogo nessa vivência hospitalar, tanto do paciente como de seus familiares, cujas repercussões do adoecimento em suas vidas mostram um significado para além da patologia e da sua gravidade. 

    Não se pode isolar a doença do ser que adoece, do sentimento de estar-enfermo, que coloca o sujeito numa experiência de mal-estar, sendo o adoecimento considerado uma situação-problema vivida pelo ser-doente-em-situação. Tal experiência decorrente do adoecimento envolve sensações e sentimentos diversos, dependendo das percepções de quem está vivenciando este momento ímpar. E sendo assim, pensando-se na hospitalização e nos momentos de dor e de sofrimento, podem-se compreender os movimentos particulares, os mecanismos de enfrentamento de cada um dos envolvidos e reflexões sobre como atravessar as dificuldades da situação. O adoecimento, então, é compreendido como um momento de crise dadas  as possíveis rupturas significativas, mobilizações do ponto de vista emocional, as implicações e os desdobramentos na existência da pessoa. Uma experiência de mal-estar que tem um poder desestabilizador e que pede cuidados. 

    É nesta perspectiva que Simonetti (2018) afirma: “Toda doença apresenta aspectos psicológicos, toda doença encontra-se repleta de subjetividade e por isso pode se beneficiar do trabalho da psicóloga hospitalar”. O autor acrescenta ainda que o adoecimento se dá quando o sujeito humano, carregado de subjetividade, esbarra em um “real” de natureza patológica denominado “doença”, presente em seu próprio corpo e produzindo uma infinidade de aspectos psicológicos que podem se evidenciar no paciente, na família ou na equipe de profissionais.1 Tais constatações levam ao sentido do saber/fazer da psicóloga no hospital: a demanda de sofrimento e a subjetividade do paciente e seus familiares também aflitos, visto que toda doença está impregnada de subjetividade e afeta a dimensão psicológica por estar acompanhada de significados subjetivos. 

    A Psicologia no hospital objetiva dar voz à subjetividade e aproxima-se do paciente em sofrimento, favorecendo a elaboração simbólica do adoecimento, a travessia do tratamento necessário e trabalhando no sentido de validar sentimentos presentes, entrando em contato com as dificuldades do momento que pode parecer insuportável e infinito. Deste modo, a prática clínica psicológica em um contexto como o hospital acontece dirigida ao ser que adoece frente às diversas patologias e aos diferentes espaços de atendimento. Onde houver sofrimento e desadaptações, o trabalho da psicóloga incide nos aspectos subjetivos e emocionais do adoecimento, assim como nos possíveis desdobramentos relacionados ao tratamento, recuperação, sequelas, cuidados paliativos e óbito. 

Nesse sentido, o espaço no hospital é psíquico, pois a psicóloga vai ao encontro do paciente em seu leito para escutar e intervir nas diversas situações que fazem parte do cotidiano do hospital e se oferecer em certa posição de não saber necessária para a escuta dos pacientes, de seus familiares e dos profissionais. Seu papel é avaliar e intervir, através de acompanhamento sistemático, sobre os efeitos do adoecer e do tratamento na realidade psíquica, assim como destacar os aspectos psicológicos e a diversidade de vivências que podem estar implicadas no processo do adoecer. Como também se faz necessário a psicóloga atender na adversidade, e no tempo que é possível.2 

Aqui, pensamos ser oportuno listarmos algumas atividades que a psicóloga hospitalar desenvolve nesse “locus”; 

- Alívio de sofrimento psíquico durante o processo de internação; 

- Validar emoções reativas ao contexto do processo de internação; 

- Realizar triagem preliminar para avaliação da necessidade de atendimento psicológico; 

- Realizar atendimento psicológico ao paciente com demanda psíquica; 

- Realizar atendimento psicológico ao acompanhante/familiar em sofrimento psíquico; 

- Sensibilizar a equipe de saúde para a compreensão de aspectos subjetivos do paciente; 

- Mediar as demandas identificadas entre paciente-família-equipe; 

- Realizar acolhimento e devidos encaminhamentos à equipe de saúde quando necessário;

- Avaliar a liberação de acompanhantes e visitas estendidas. 

Aqui, é importante ressaltar que o saber fazer da psicologia não se enquadra como uma atividade objetiva, universal, com passos definidos aprioristicamente, sem a implicação do paciente. O fazer da Psicologia em qualquer cenário de prática, mas especialmente no hospital, não se ancora na perspectiva do convencimento ou de uma lógica asséptica. Este saber/fazer fundamenta-se em dar voz ao sujeito, em legitimar suas demandas com o próprio, entre suas figuras de cuidado/família e entre a equipe multidisciplinar assistencial. Desta forma, o atendimento do profissional de psicologia pode muitas vezes não acontecer no tempo cronológico ou no tempo preconizado pelos protocolos, pois trabalhamos no caso a caso, no singular, no que de mais íntimo esse sujeito porta. Porta (dor), mal-estar, vergonha, culpa, medo, aflição, pânico – afetos que podem interferir no tratamento, na adesão, inclusive na permanência da internação. 

Na universalização do cuidado, nas construções de protocolos, nas medidas estatísticas que a ciência positiva propõe a singularidade do caso a caso se perde. A prática universalizante parece querer tratar todos de forma igual e deixa escapar que cada sujeito tem algo singular que não se reproduz em série. A serialização do cuidado não se aplica quando se faz um pedido a psicóloga para entrar na cena hospitalar. Não podemos escutar “vulnerabilidades” da mesma forma. É necessário resguardar a dimensão da equidade e das diferentes respostas em relação ao sujeito que tem um emprego, tem formação em escola privada desde que nasceu, mora em casa própria em bairro nobre da cidade, sem se preocupar com sua alimentação e sobrevivência diária, cada sujeito existe em seu contexto biopsicossocial. 

Aqui, trabalhamos em um hospital de doenças infecciosas que traz a aids como uma das doenças de maior prevalência nesse território. Esta doença se constitui com peculiaridades de uma doença transmissível pela via sexual e o confronto com a morte se torna inevitável. 

A aids remete ao medo do contágio, mesmo não sendo transmitida por via aérea ou por contato na pele. Ela traz uma fantasia do excesso sexual, da perversão, dizendo de outro jeito, o trauma do sexo e da morte estão em jogo na aids. Ainda outra questão associa-se, como já não bastassem as referidas, o horror do olhar do outro pelo julgamento moral das condutas e comportamentos tidos como “anormais” em torno do sexo. 

Canguilhem, em seu livro “O normal e o patológico” (2009), defende que a norma é, antes de tudo, uma norma individual, e o normal seria um julgamento de valor e não de realidade. Ainda nessa concepção, o campo da saúde opera com o discurso da normalização e autentica a disciplinarização dos corpos e das condutas. Dizendo de outra forma, é com a invenção da manifestação do anormal que a norma e o normal se legitimam, pois a normalização vem de fora e quem diz o que é normal ou não depende da regulação vigente.3

Nesse sentido, o campo da saúde fundado pelo modelo anátomopatológico produz valores e padrões de comportamentos generalizantes, onde a racionalidade proposta marca e delimita um modo de viver onde a singularidade não é bem-vinda e tem como finalidade o ajustamento do mal-estar. 

Logo, a manutenção desse modelo tornou-se necessário para o controle de riscos e prevenção de doenças por contágio. No entanto, esse mesmo modelo de saúde parece não ter operado algumas vezes na prevenção de doenças por contágio como também no combate a doenças infecciosas, pois, apesar de toda tentativa de normatização dos comportamentos, os sujeitos continuam se infectando e transmitindo o HIV, na maioria das vezes não por desconhecerem racionalmente a forma de transmissão e as medidas de prevenção, mas por algo que escapa à racionalidade e impulsiona para o além do princípio do prazer. E a, cada tempo, o contexto dos sujeitos que vivem com HIV/ aids vai se modificando e a ferida narcísica de uma não cura – leia-se hoje como cronicidade, se faz presente no prognóstico da doença. 

Logo, o sujeito da racionalidade, da reflexão e da consciência não é o que escutamos. Nossa escuta vai ao encontro daquele que falha, se engana com as palavras, desliza, se equivoca. Recolhemos essas palavras e devolvemos ao paciente como pergunta. Queremos saber do sujeito internado com seu texto - do seu desejo, das palavras, de como ele conta sua história, do atravessamento do adoecimento, do seu medo, da sua angústia. Isso nos interessa! A ideia da pontuação de um texto não pontuado nos ocorre agora, como diz Coutinho Jorge. As palavras do paciente às vezes estão confusas, e esse se cala ou é silenciado. Logo, parece existir uma desautorização subjetiva, um não querer saber do que o paciente sofre e como ele sofre.4,5

Ressalta-se que querer saber do sofrimento do paciente não é fácil. A angústia de lidar com o limite do tratamento, com uma doença que ameaça a vida e ainda não existe cura, onde os adventos do real se apresentam, parece difícil de suportar. Mas o que é excluído retorna como algo não assimilável ou como enigma. 

A ética da Psicologia não se refere à profissão ou aos códigos, não se configura na realização de procedimentos e protocolos. A ética que propomos é a ética do desejo – uma força atravessada pelos significantes e história do paciente. Essa é a nossa aposta, tentando conduzir o paciente para uma relação com seu próprio desejo. A ética de uma criação, reinvenção – uma ética trágica – como a de Antígona. Uma ética que não ceda do seu desejo, resista à domesticação do sujeito ao outro, ao silenciamento de sua palavra, que não se deixe dobrar a tirania do rei em qualquer contexto e em qualquer lugar. A supremacia/autonomia, escolha precisa ser do sujeito, mesmo no cenário hospitalar, e não do que faz sentido e os modos de vida de quem o assiste em um momento pontual da sua biografia. 

Referências 

  1. Simonetti, A. Manual de Psicologia hospitalar. 8ed. BH. Artesã editora. 2018 

  2. Lazaretti, C. et al. Manual de Psicologia Hospitalar, CRP-PR. Coletânea ConexãoPsi. Curitiba: Unificado, 2007. 

  3. Canguilhem, G. Normal e patológico. 6.ed. - Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. 

  4. Coutinho Jorge, M A. Lacan: o grande freudiano. Jorge Zahar, 2005 

  5. Moretto, M L; Priszkulniz, L. Sobre a inserção e o lugar do psicanalista. Tempo psicanal. vol.46 no.2 Rio de Janeiro dez. 2014