A Revista Viver São José dedica esse espaço para a indicação de produtos culturais que dialogam, direta ou indiretamente, com as temáticas apresentadas nos conteúdos da publicação. Nesta edição, Melissa Medeiros, infectologista do HSJ, sugere alguns filmes e livros com temas que vão de surtos de doenças a questões mais existenciais. 

LIVROS 

A segunda edição da Revista Viver São José oferece ao leitor duas sugestões de livros com propostas diferentes e brilho próprio. Em “A febre” (editora InVerso), romance ficcional escrito pelo infectologista e virologista Ricardo Diaz, moradores do norte da Espanha, uma bruxa e um membro do alto clero da Igreja Católica se unem para tentar desvendar os mistérios relacionados a uma doença infecciosa epidêmica altamente transmissível e mortal. 

Reconhecido no Brasil e no exterior por participar de pesquisas em busca da cura da Aids, Ricardo Diaz apresenta um enredo instigante que tem como pano de fundo a Idade Média, período no qual epidemias eram responsáveis pela mortalidade de grande parte da população. A trama revela a dificuldade dos personagens principais em lidar com medidas básicas de prevenção a infecções, como lavagem das mãos, o que nos faz naturalmente refletir sobre os desafios impostos atualmente pela pandemia de Covid-19. Com a leitura, fica o questionamento: a história nos ensina, mas será que realmente estamos dispostos a aprender e assimilar mudanças de hábitos? 

Mais do que uma leitura fácil e apaixonante, “A febre” proporciona uma grande reflexão sobre o mundo, nossos comportamentos diante das adversidades e como enfrentaremos esta e as próximas epidemias que surgirem. A obra nos faz viajar no tempo, sentir as emoções dos personagens e tentar, em cada página, interferir nos desfechos da história. 


 

 

 

 

 

Como segunda indicação, temos o livro “Humanidade: uma história otimista do homem” (editora Crítica). O best-seller internacional de Rutger Bregman  traz histórias esclarecedoras, baseadas em estudos científicos, sobre a verdadeira natureza humana. Afinal, nascemos bons ou temos uma maldade intrínseca, como sugere a "Teoria do Verniz", segundo a qual os seres humanos seriam maus e a moralidade humana, apenas uma camada de verniz.  

Sem sombra de dúvidas, temos ouvido falar muito em humanidade nos últimos anos. O termo chega a soar incômodo, pois é inevitável questionar se, de fato, somos todos humanos. A publicação desperta diversos questionamentos. O que torna nós, humanos, tão especiais? Por que o Homo sapiens dominou o mundo e não o macaco bonobo, que tem um DNA 95% similar ao nosso? O que nos fez prevalecer sobre o homo neandertal, que eram mais fortes e tinham um cérebro 15% maior que o nosso? 

A leitura nos faz, portanto, questionar conceitos que estão enraizados em nós e que se assemelham a verdades absolutas. O que leva, por exemplo, seres humanos a praticar atos de tamanha violência, como ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial? Não é um livro para uma semana de férias, mas para ter na sua biblioteca pessoal e reafirmar, sempre que necessário, sua fé na própria humanidade. 

 

 

 

 

FILMES

Dentro do contexto apaixonante do ensino e da pesquisa, indicamos duas sugestões de filmes que trazem personagens da vida real, mas que possuem histórias dignas de ficção científica: “Radioactive” e “A teoria de tudo”. O primeiro conta a trajetória da polonesa Marie Slodowska (Rosamund Pike), renomada física e química que descobriu a radioatividade – termo, aliás,  inventado por ela. 

Em 1894, aos 27 anos, Marie estudava as propriedades magnéticas do aço na Universidade de Sorbonne, na França, graças a uma bolsa de estudos concedida pela indústria naval. Na primavera do mesmo ano, foi apresentada a Pierre Curie pelo físico Józef Wierusz-Kowalski. Ambos tinham em comum o interesse pelo magnetismo e começaram a trabalhar juntos no laboratório de Pierre.

Os dois se casaram em 26 de julho de 1895 e Marie adotou o sobrenome de Pierre. O filme apresenta os principais feitos da cientista em prol da ciência no período de 1893 a1934, ano da sua morte. O casal mais famoso da ciência moderna teve uma filha e fez descobertas que mudaram o mundo para sempre. Radioactive traz uma perspectiva pessoal da protagonista para além da cientista que venceu as barreiras do preconceito e chegou a ser desacreditada em seu próprio país.  

Em 1896, o físico francês Henri Becquerel descobriu um novo fenômeno: uma radiação invisível emitida pelo urânio. Curiosa, Marie decidiu começar uma tese de doutorado a respeito do assunto. Embora não tenha participado das pesquisas inicialmente, Pierre ajudou a esposa, apresentando-a à comunidade científica da época e ajudando-a a montar seu próprio laboratório nas dependências da universidade.

Em março de 1898, após as descobertas promissoras de Marie com um novo elemento mais radioativo que o urânio, Pierre abandonou suas pesquisas e se juntou à esposa. Em julho, assinaram um artigo em que descreviam, pela primeira vez, o elemento polônio. O casal foi pioneiro no campo da radioatividade. Primeiro, por conta da pesquisa na área, venceram o Prêmio Nobel de Física em 1903. Após isso, Pierre morreu. Marie Curie seguiu as pesquisas e descobriu os elementos rádio e polônio. Com isso, venceu o Prêmio Nobel de Química em 1911, se tornando a única mulher a ter dois troféus e a única pessoa a conquistar em áreas diferentes. O estudo da cientista ajudou no desenvolvimento da quimioterapia para tratar câncer e também na criação da tecnologia em raio-x.

 

Deixo sua célebre frase: 

“Nada na vida deve ser temido, somente compreendido. Agora é hora de compreender mais para temer menos”.

 

Pierre e Marie se casaram em 26 de julho de 1895 – Domínio Público/Wikimedia Commons

Rosamund Pike no papel de Marie Curie em frente a uma mesa com experimentos químicos

O filme é inspirado no livro Radioactive: Marie & Pierre Curie: A Tale of Love and Fallout, de 2010, escrito por Lauren Redniss – Netflix/Divulgação    
 

    

O casal Curie em lua de mel, nas florestas da região de Chantilly – Fonte: Wikimedia Commons 

O outro filme que nos chama atenção é “A teoria de tudo”. Baseado na biografia de Stephen Hawking  (Eddie Redmayne), a produção cinematográfica mostra como o jovem astrofísico fez descobertas importantes sobre o tempo, além de retratar o seu romance com a aluna de Cambridge Jane Wide (Felicity Jones), sua primeira esposa e companheira.

Responsável pela teoria sobre buracos negros, Hawking foi diagnosticado aos 21 anos com esclerose lateral amiotrófica (ELA). A doença o deixou de cadeira de rodas e, à época, Stephen recebeu a notícia de que teria somente mais dois anos de vida. O jovem contrariou os prognósticos da Medicina e viveu até os 76 anos, sendo um dos cientistas mais brilhantes que o mundo já viu. 
O roteiro do filme é um retrato que, para além de fiel, é poético e bem-humorado. O protagonista surpreende pela capacidade de reproduzir os comportamentos e as limitações do astrofísico decorrentes da doença. A interação entre os personagens possibilita a abordagem de temas não apenas de cunho científico, mas de teor humano. 

A cinebiografia oferece ao espectador a oportunidade de entender o contexto no qual Hawking viveu e descobrir as alegrias e tristezas próprios de um personagem real. Ao longo do filme, é possível compreender, por exemplo, a importância da rede de apoio formada em torno do cientista para permitir que ele pudesse compartilhar seu conhecimento com a sociedade. A produção é, em suma, uma ótima pedida para um final de semana em casa com pipoca e reflexões sobre as possibilidades e desafios da vida. 


Eddie Redmayne recebeu o Oscar de melhor ator por “A teoria de tudo” — Foto: John Shearer/Invision/AP

 


O cientista Stephen Hawking e a escritora Jane Hawking no dia de seu casamento, em 1965 
 

Cena do filme “A teoria de tudo” — Universal  Pictures/Divulgação